segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A Nascente

     
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         Um dos motivos que me fazem demorar pra escrever uma resenha é quando o livro toca tão fundo minha alma e levanta questões tão essenciais que por semanas ainda fico refletindo sobre cada minúcia da história.
    A primeira vez que houvi falar de "A Nascente" e de sua escritora "Ary Rand" foi numa matéria sobre o Steve Ditko, o co-criador do Homem-Aranha e da maioria dos seus vilões! Extremante recluso e focado no trabalho, ele era adepto do Objetivismo, uma filosofia de vida criada pela filósofa Ary Rand e exemplificada nos seus livros, do qual o principal seria "A Nascente". Anos depois, com o lançamento de uma edição caprichada pela editora Arqueiro, comecei a mergulhar nas suas páginas.
A história se passa nos anos 20 centralizada em dois grandes personagens:

Roark: Arquiteto modernista, extremamente voltado para a funcionalidade de seus projetos, o herói do livro. Suas construções visam tirar o máximo proveito dos recursos naturais do local onde serão construídos e atender a necessidades reais de seus proprietários. Direto, seco e perseguidor incansável dos seus sonhos, jamais mentindo nem aceitando jogos burocráticos, uma amizade verdadeira com ele vale para toda a vida
Peter: Outro gênio da arquitetura, decorou a forma de fazer construções nos estilos de qualquer período histórico, sem desenvolver qualquer estilo próprio. Ascendendo na carreira através de bajulações e chantagens, seus projetos visam diretamente aqueles que querem ter uma casa ou edifício para ostentá-lo frente aos visitantes e aos jornalistas da cidade. Sua obra não reflete o cliente, mas o desejos deste de ser invejado pelos outros. Ao mesmo tempo que recorre a Roark por não ter a visão nem originalidade do herói, vê nele como sua principal ameaça.

Assim, a história vai decorrendo mostrando a briga entre diversas empresas de arquitetura pelos grandes projetos enquanto os dois buscam alavancar sua carreira, o primeiro cheio sonhos que deseja materializar em suas obras, o segundo apenas copiando estilos sem ter qualquer coisa original para oferecer. Peter se torna cada vez mais vazio a medida que vai abrindo mão de seus poucos sonhos para conquistar cada vez mais fama, esta lhe trazendo prazeres cada vez mais superficiais e restritos.
Mesmos os interesses amorosos dos personagens refletem diretamente suas filosofias, com a namorada de Peter submissa cada vez mais a ele e ao tio, até ser tornar alguém totalmente sem sonhos. Já a de Roark é incentivada cada vez mais a assumir sua individualidade perante todos.
No meio de tudo temos Toohey, o crítico de arquitetura que, dos bastidores, patrocina os autores de cada estilo de arte( literatura, arquitetura, tetro, etc) cujas obras aproximem de seu ideal. Visto como um grande humanitário e amigos das artes, Toohey incentiva Peter justamente pelo que sua arte é : vazia. Tudo o que valorize a mediocridade e ridicularize o heroico, tudo que despreze o individual e fortaleça o coletivo, tudo que esmague a iniciativa e fortaleça a submissão, essa é seu desejo para a humanidade.
Apesar de ter pouca passagens, um dos patrocinados por Toohey que mais expressa tudo isso é o crítico de teatro Jules.  Jules fala com prazer em sua coluna de jornal o quão perto está de chegar o dia em que, com os projetos individuais deixando de existir, as próprias obras de arte desaparecerão e os únicos artistas serão os críticos, que traçarão os perfis estéticos dos acontecimentos comuns do dia a dia ( A autora previu o Big Brohter! )
Como visto aqui temos a expressão do individualismo, do poder do ego, versus o coletivo, o poder da multidão/sociedade. Não uma coisa para ver correndo ou tomar o lado de um partido, mas para refletir cada detalhe, o que inclui as próprias ações do dia a dia. Como exemplo de reflexão desse tipo, no livro "O guia politicamente incorreto da história do mundo", o autor sugere que a ideia de vida simples e humilde de Ghandi poderia ser um motivo para a pobreza da Índia ainda maior do que o colonialismo inglês.
Mas, Luiz, você virou objetivista depois do livro? Minha resposta: não, mas vi nessa filosofia uma ótima ferramenta para questionamentos e o quanto adequada era ela pra época da guerra fria ( o livro foi escrito em 1935), onde ditaduras de direita e esquerda se espalhavam pelo mundo.Vi o quanto é importante pensar e planejar racionalmente sobre os próprios sonhos para realizá-los de forma a promover a criatividade de todos que forem tocados por ele, vi o quanto pessoas que santificamos podem na verdade estar perpetuando o problema que alegam combater, vi todos os tipos de rede de intrigas que podem pegar qualquer um e vi as possibilidade luminosas e sombrias da mídia. E a história é emocionante do início ao fim!
 
Foto: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2590153/a-nascente-the-fountainhead